Prosear

Significado de Prosear:

-Conversar, dar á língua.

- Conversar sem nenhum compromisso

- Jogar conversa fora

- Bater papo



"Uma prosa sobre minhas vivências, pensamentos, um passeio no meu subjetivo. Uma conversa de peito aberto sobre a vida e o viver. Os "causos" que vou juntando pelas minha andanças".



terça-feira, 10 de agosto de 2010

A arte de ouvir.

Quando meu marido viaja a trabalho e fico só em casa escutos sons que com ele aqui não escuto. Escuto o barulho da água caindo do aquário, o som suave do vento lá fora, ruído da adega de vinhos, os gatinhos ronronando. Hoje é um destes dias, e dias assim chego em casa e não converso, não compartilho como foi meu dia, não falo livremente...mas penso...penso e me escuto. Ontem um aluno me disse que quando está triste gosta de ouvir sua alma. Considero um ótimo hábito, mas percebo que não é muito usual, não somos habituados a ouvir (seja a alma própria ou do outro). Hoje convido Rubem Alves para prosear conosco...hoje não quero falar quero ouvir.

"De todos os sentidos, o mais importante para a aprendizagem do amor, do viver juntos e da cidadania é a audição. Disse o escritor sagrado: “No princípio era o Verbo”. Eu acrescento: “Antes do Verbo era o silêncio.” É do silêncio que nasce o ouvir. Só posso ouvir a palavra se meus ruídos interiores forem silenciados. Só posso ouvir a verdade do outro se eu parar de tagarelar. Quem fala muito não ouve. Sabem disso os poetas, esses seres de fala mínima. Eles falam, sim. Para ouvir as vozes do silêncio. Veja esse poema de Fernando Pessoa, dirigido a um poeta: “Cessa o teu canto! Cessa, que, enquanto o ouvi, ouvia uma outra voz como que vindo nos interstícios do brando encanto com que o teu canto vinha até nós. Ouvi-te e ouvia-a no mesmo tempo e diferentes, juntas a cantar. E a melodia que não havia se agora a lembro, faz-me chorar...” A magia do poema não está nas palavras do poeta. Está nos interstícios silenciosos que há entre as suas palavras. É nesse silêncio que se ouve a melodia que não havia. Aí a magia acontece: a melodia me faz chorar.
Não nos sentimos em casa no silêncio. Quando a conversa para por não haver o que dizer tratamos logo de falar qualquer coisa, para por um fim no silêncio. Vez por outra tenho vontade de escrever um ensaio sobre a psicologia dos elevadores. Ali estamos, nós dois, fechados naquele cubículo. Um diante do outro. Olhamos nos olhos um do outro? Ou olhamos para o chão? Nada temos a falar. Esse silêncio, é como se fosse uma ofensa. Aí falamos sobre o tempo. Mas nós dois bem sabemos que se trata de uma farsa para encher o tempo até que o elevador pare.
Os orientais entendem melhor do que nós. Se não me engano o nome do filme é “Aconteceu em Tóquio”. Duas velhinhas se visitavam. Por horas ficavam juntas, sem dizer uma única palavra. Nada diziam porque no seu silêncio morava um mundo. Faziam silêncio não por não ter nada a dizer, mas porque o que tinham a dizer não cabia em palavras. A filosofia ocidental é obcecada pela questão do Ser. A filosofia oriental, pela questão do Vazio, do Nada. É no Vazio da jarra que se colocam flores.
O aprendizado do ouvir não se encontra em nossos currículos. A prática educativa tradicional se inicia com a palavra do professor. A menininha, Andréa, voltava do seu primeiro dia na creche. “Como é a professora?”, sua mãe lhe perguntou. Ao que ela respondeu: “Ela grita...” Não bastava que a professora falasse. Ela gritava. Não me lembro de que minha primeira professora, Da. Clotilde, tivesse jamais gritado. Mas me lembro dos gritos esganiçados que vinham da sala ao lado. Um único grito enche o espaço de medo. Na escola a violência começa com estupros verbais.
Milan Kundera conta a estória de Tamina, uma garçonete. “Todo mundo gosta de Tamina. Porque ela sabe ouvir o que lhe contam. Mas será que ela ouve mesmo? Não sei... O que conta é que ela não interrompe a fala. Vocês sabem o que acontece quando duas pessoas falam. Uma fala e outra lhe corta a palavra: ‘é exatamente como eu, eu...’ e começa a falar de si até que a primeira consiga por sua vez cortar: ‘é exatamente como eu, eu...’Essa frase ‘é exatamente como eu...’ parece ser uma maneira de continuar a reflexão do outro, mas é um engodo. É uma revolta brutal contra uma violência brutal: um esforço para libertar o nosso ouvido da escravidão e ocupar à força o ouvido do adversário. Pois toda a vida do homem entre os seus semelhantes nada mais é do que um combate para se apossar do ouvido do outro...”
Será que era isso que acontecia na escola tradicional? O professor se apossando do ouvido do aluno ( pois não é essa a sua missão?), penetrando-o com a sua fala fálica e estuprando-o com a força da autoridade e a ameaça de castigos, sem se dar conta de que no ouvido silencioso do aluno há uma melodia que se toca. Talvez seja essa a razão porque há tantos cursos de oratória, procurados por políticos e executivos, mas não haja cursos de escutatória. Todo mundo quer falar. Ninguém quer ouvir.
Todo mundo quer ser escutado. (Como não há quem os escute, os adultos procuram um psicanalista, profissional pago do escutar.) Toda criança também quer ser escutada. Encontrei, na revista pedagógica italiana “Cem Mondialità” a sugestão de que, antes de se iniciarem as atividades de ensino e aprendizagem, os professores se dedicassem por semanas, talvez meses, a simplesmente ouvir as crianças. No silêncio das crianças há um programa de vida: sonhos. É dos sonhos que nasce a inteligência. A inteligência é a ferramenta que o corpo usa para transformar os seus sonhos em realidade. É preciso escutar as crianças para que a sua inteligência desabroche.
Sugiro então aos professores que, ao lado da sua justa preocupação com o falar claro, tenham também uma justa preocupação com o escutar claro. Amamos não é a pessoa que fala bonito. É a pessoa que escuta bonito. A escuta bonita é um bom colo para uma criança se assentar..." Rubem Alves.

Espero aprender a OUVIR: com os ouvidos, com o coração, com a alma e com a intencionalidade.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Escolhas.


Dizer que no decorrer das nossas vidas estamos cercados de escolhas a serem feitas parece muito cliché, mas mesmo sabendo disso não deixamos de sofrer diante da necessidade de ESCOLHAS. Costumo ouvir muitas especulações de meus pacientes sobre decisões que devem tomar, na verdade precisamos de confirmação ou ajuda quando queremos/temos que escolher algo importante. Uma mudança de emprego, o término de um relacionamento, um perdão a ser liberado, uma mudança de cidade, um casamento, uma gravidez, um aborto...escolhas!!!


Para mim é difícil falar de escolhas, sou indecisa por natureza. Quando temos que assumir uma postura diante de algo dá um medo...isso acontece porque após esta escolha, você (e só você que decidiu), assumirá as conseqüências disso. Gosto muito quando o filósofo Sartre diz: "O homem está condenado a ser livre". Contudo, ao meu ver, esta liberdade está vinculada a uma responsabilidade de ESCOLHA. Escolhendo você assume o seu risco, assume o ser livre.


Gosto muito de uma poesia do poeta norte-americano Robert Frost, chamada: The road not taken. Fala de dois caminhos a serem seguidos e uma escolha. A tradução é a seguinte:


O Caminho Não Percorrido


Num bosque amarelado, o caminho se partia em dois,

E lamentando igualmente não poder seguir por ambos

E ainda ser um único viajante, parei por muito tempo

Mirando ao longo de um deles o mais longe possível,

Até onde esse se recurvava por trás dos arbustos;


Então eu escolhi o outro, por ser mais bonito,

E ser talvez o que mais me chamasse a atenção,

Sendo recoberto de relva, pedia que fosse trilhado;

Apesar do fato de que eles terem sido percorridos

Os tenha desgastado praticamente da mesma forma,

E ambos naquela manhã estarem igualmente recobertos

Em folhas onde nenhum passo tivesse deixado marca.

Ah, mesmo assim eu deixei o outro para outro dia!

Mesmo sabendo de que forma se percorre um caminho,

Fiquei em dúvida se algum dia deveria voltar a ele.


Deverei estar contando essa história, suspiroso,

Nalgum lugar, nalgum dia, tempos e tempos depois:

O caminho se dividia em dois num bosque, e eu —

Eu peguei aquele que havia sido menos percorrido,

E foi justamente isso que fez toda a diferença.


Bem, quando tive que fazer uma grande escolha na minha vida eu me inspirei neste poema, e ainda hoje estou assumindo "a dor e a delícia de ser o que é". Vivendo minha liberdade de escolhas.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

A árvore.

video

Antes de ler por favor veja o vídeo com sua "alma".

Nossa, que grande impacto ao ver este vídeo pela primeira vez! Depois de assistir outras vezes comecei a racionalizar os acontecimentos. Quantas vezes nos vemos "presos" em situações de impossibilidades? Quantas vezes reclamamos, desistimos ou esperamos que algo aconteça? Ficamos emperrados nas dificuldades e não saímos da zona de conforto para fazer parte da solução.

Um grande impasse, um grande obstáculo que se coloca diante daquelas pessoas, algumas esperam, outras reclamam, outras decidem ir andando ao seu objetivo (preocupadas somente consigo), mas a criança resolve tentar algo novo. Moreno (criador do psicodrama) formulou a teoria da espontaneidade, que está ligada dialeticamente à criatividade. A criança do vídeo foi criativa ao ousar imaginar uma nova solução para o obstáculo imposto diante daquela comunidade. Ele ousou criar uma nova saída!!! Foi lá e criou: livre de todas as conservas culturais, isto é, toda a cristalização de um processo de criação. Estas conservas quando mantidas e repetidas sem a devida consciência e crítica, nos faz correr o risco de tornar-nos seres robotizados, programados e sem criatividade, apenas reproduzindo comportamentos.

O menino não se preocupou se a árvore era pesada, se iria parecer louco, se este tipo de comportamento é impróprio..."não sabendo que era impossível, ele foi lá e fez", e fazendo ele mobilizou, movimentou e moveu a árvore do lugar!!! No fim o sol volta a brilhar, as coisas fluem e o ritmo da vida volta ao normal. Acho muito simbólico o policial dormindo e acordando somente quando tudo se resolve (ao meu ver ele representa as instituições). Muitas vezes esperamos em vão por grandes resoluções de nossas instituições gordas e dorminhocas...entregamos em suas mãos o dever de organizar, pacificar, programar, sanar nossa vida em comunidade.

Por fim a árvore saiu, o pequeno conseguiu derrotar o Golias. E sua árvore, qual é?

Nara Guimarães.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

A sensibilidade.


Hoje me surpreendi com uma criança que eu estava atendendo, coisa não rara de acontecer, elas sempre me levam a outra dimensão. Estávamos montando um quebra-cabeças onde tinha a figura de uma abelha, o pequeno comentou: -"Eu amo as abelhas, elas são tão sensíveis..." Fiquei rindo tentando entender aquilo. Questionei o significado de sensibilidade, ele rapidamente me disse que as abelhas são muito cuidadosas com a coméia, tratam bem as abelhinhas pequenas e que cada uma faz uma coisa. Fiquei encantada com a definição!!! Para arrematar ele disse que elas também são chics, muito bonitas de cores legais, coisa que eu concordo, elas concorrem juntamente com as joaninhas e borboletas ao título de "mais bem vestidas". Como diria meu pequeno amigo: -"São chics como duas amiguinhas que tenho na escola".


Depois deste atendimento fiquei pensando em escrever sobre a sensibilidade, o ser sensível.


Para o dicionário é a capacidade de sentir, propriedade de reação dos organismos aos estímulos externos ou internos. Pode ser também a tendência, disposição a ser dominado pelas impressões, sentimentos, emoções; impressionabilidade, suscetibilidade.


Para mim é tudo isso e algo mais, bem mais, é ser a flor da pele. É o SENTIR...VIVER/FLUIR. É se colocar disposta ao mundo no modo "on-line", se permitindo receber as informações e deformações do mundo. Ser sensível neste sentido é difícil pois nos expõe, não sabemos que componente virá pela frente e deixará nossa "pele sensível irritada". Dessa forma, é melhor se proteger, passar creminho anti-alérgico ou se fechar! Quantas vezes eu sofri por minha demasiada sensibilidade, quanto choro fora de hora, sentimentos extremados, vontade de salvar o mundo? Contudo, ainda creio ser melhor do que o fechamento do que o não sentir, não sofrer, não viver.


Voltando a historinha do início, agora vejo que as abelhas são sensíveis sim!!! Conseguem viver bem em comunidade, dividem tarefas, respeitam hieraquia, conhecem bem suas regras e cuidam uma das outras. Se tivéssemos este tipo de sensibilidade nossa humanidade estaria mais conectada com o Eu e o Outro, sendo bem mais fácil chegar ao Transcendental.


quinta-feira, 15 de abril de 2010

Dois tipos de felicidade.

Este é um mito, algo que já tocou bastante meu coração e de alguns de meus pacientes, nos faz pensar sobre nossa necessidade de GRANDEZA e de SER/TER tanto na vida.


"Antigamente, quando os deuses ainda pareciam bem próximos dos humanos, viviam numa pequena cidade dois cantores de nome Orfeu.
Um deles era o grande Orfeu. Inventara a cítara, a precursora da guitarra, e quando dedilhava sua cordas e cantava, a natureza em torno ficava enfeitiçada. Os animais ferozes se deitavam mansamente a seus pés, as altas árvores se curvavam para ele. Nada podia resistir a seus cantos. Como era tão grande, cortejou a mais bela mulher. Depois começou o declínio.
Enquanto ainda celebrava as bodas, morreu sua bela Eurídice, e a taça cheia partiu-se no momento em que era brindada. Mas, para o grande Orfeu, a morte ainda não era o fim. Valendo-se de sua arte requintada, encontrou a entrada do mundo subterrâneo, desceu ao reino das sombras, atravessou o rio do esquecimento, passou pelo cão dos infernos, apresentou-se vivo ante o trono do deus da morte e o comoveu com o seu canto.
A morte liberou Eurídice, porém sob uma condição. Ele não poderia olhá-la até chegarem na superfície. Orfeu estava tão feliz que não percebeu o ardil oculto por trás do favor. Retomou o caminho de volta, ouvindo atrás de si os passos da mulher amada. Passaram ilesos pelo cão dos infernos, atravessaram o rio do esquecimento, começaram a subida em direção à luz, e já a avistaram ao longe.
Então Orfeu ouviu um grito - Eurídice tropeçara. Virou-se horrorizado, ainda viu a sombra desaparecendo na noite, e ficou só. Fora de si pela dor, cantou sua canção de despedida: "Ai de mim, eu a perdi, toda minha felicidade se foi!"
Ele próprio retornou à luz, mas no reino dos mortos passara a estranhar a vida. Quanto algumas mulheres ébrias quiseram levá-lo à festa do vinho novo, ele se recusou, elas os despedaçaram em vida.
Tão grande foi sua desgraça e tão inútil foi sua arte. Porém todo o mundo o conhece!
O outro Orfeu foi o pequeno. Era apenas um músico ambulante que se apresentava em pequenas festas, tocava para gente humilde, alegrava um pouco e se divertia por isso. Como não podia viver de sua arte, aprendeu um ofício comum, casou-se com uma mulher comum, teve filhos comuns, pecou eventualmente, foi feliz de uma forma totalmente comum, morreu velo e satisfeito da vida.
Mas ninguém o conhece - exceto eu!" Bert Hellinger

Enfim...faça a experiência de deixar estas palavras entrar em seu coração sem julgamentos e veja qual recado ela dá pra você, eu já recebi o meu!

terça-feira, 13 de abril de 2010

Qual o motivo de se fazer um blog? Ou melhor, qual a razão de depois de tanto tempo eu "refazer" um blog? Não sei esta resposta, mas tenho sentido necessidade de falar, escrever sobre algumas coisas...acho que este é o lugar, lugar livre (vê quem quer), lugar aberto para isso. Então aqui será local para as minhas cartases, pensamentos, exposição de vivências...ai que medo!

Na minha prática profissional eu escuto muito, observo muito, meu falar fica centrado na vida do Outro, não na minha. Quem sabe aqui posso falar de mim, pensar em mim? Vamos ver como é que fica....

Desde pequena gostava dos meus devaneios, lembro de brincar de imaginar (que era melhor que brincar de verdade pois eu brincava 2x, imaginando e brincando na minha imaginação), essas brincadeiras me levavam para longe. Onde essa minha nova brincadeira (de escrever em público)vai me levar? Lembro de ser caladinha, quietinha. Eu tinha amigos, mas muitas vezes preferia ficar só, me divertir só. Ainda hoje gosto da sensação de ficar bem só comigo mesma. Então volto a primeira pergunta: "qual a minha motivação de ter um blog?"

Isso me faz lembrar uma crônica de Rubem Alves(AMOOOO!!!) onde ele fala e percebe a contradição em sua vida. Ele percebe neste escrito que sempre gostou de caminhar sozinho, de estar sozinho...mas se questiona: "Ao escrever eu não estarei convidando os que me lêem a seguir o meu caminho? Como se eu lhes dissesse: Vem por aqui!! "

Assim como Rubem Alves repito: "Não, não, não! Não quero transformar minhas caminhadas solitárias em procissões ou comícios. Não quero seguidores. Quero continuar a caminhar sozinho. É bom caminhar sozinho. E o caminhar sozinho não faz caminhos para os outros. O meu caminho é só meu."

Ao falar isso, digo somente que meus caminhos (pensamentos idéias) são somente minha visão, e não pretento "converter"ninguém a eles. Se agradar alguém...ÓTIMO. Se escolherem caminhar comigo serão como amigos, companheiros, não como seguidores de uma doutrina. Eu com meus pensamentos....e eles com os seus. Neste momento acontece a mágica, o ENCONTRO. A arte de ver e sentir o subjetivo do Outro. Espero ter vários encontros ao longo do meu caminho.

Acho que já é!!!!